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Janeiro 7, 2013

GdSAporRuiPaes1973CR

 

MOÇAMBIQUE – Encontro com Escritores – Michel Laban 

Excerto da entrevista a Glória de Sant’Anna

“P. – Há uma tendência para o fantástico – com toda a dificuldade que vejo na utilização de uma palavra como esta:

fantástico.. . 

G. S’A.  Para o imaginativo, vá lá…

P. Imaginativo, sim. Em que o símbolo tem uma força muito marcada…

G. S’A. Sim. Eu uso muito o símbolo… Porquê, não sei bem. Um psicólogo ou psiquiatra talvez lhe pudessem dar a resposta… , a resposta certa. Eu posso aventar a hipótese de que uso o símbolo para não ser agressiva.

P. Além, talvez de uma situação politica que impedia…

G. S’A. Bom. Isso também talvez, mas não sei se tanto… , alguma coisa mas  não tanto como o gosto…

Sabe que a censura me cortou alguns trabalhos, e até poe­mas?

 P. Lembro-me de uma crónica que escreveu sobre o pescador e um homem que pisava as redes rasgando-as, e que ficou  como condenado a remendá-las… Será  completa­mente ilógico  pensar  numa alusão à sociedade de Moçambique naquela  época?

 G.  S’A.  Não  é  ilógico… mas  não  foi  escrita  com  essa intenção.  Foi antes como  um  divagar  de  fuga  ao prometimento de  escrever  uma  outra  crónica…

 P. Pode  evocar  o caso  desde  o princípio?

 G.  S’A. Evocar  o  caso  desde  o  princípio  é  uma  longa história…

Mas  está  bem,  eu conto-lha:

Tinham-nos oferecido um cachorrito rafeiro,  mas  esper­tíssimo  que  se  afeiçoou   imenso  às  minhas   duas  filhas  mais novas.  E esse  cão  tornou-se  uma  fonte  de  preocupações, por­ que  sempre   que  aquelas   duas  crianças  estavam  por  perto, mordia  a  torto  e a  direito  quem  se aproximasse,  ou  até  quem fosse a passar  perto da estrada.  (Nós lá não quisemos  pôr  por­tões,  e  nos  muretes  as  sebes  eram  de  buganvílias.)  De  forma que  uma  tarde  – já depois  de  algumas  investidas  ao  mesmo sujeito)   o  cão  atirou-se  a  um  carcereiro  da  Pide.  O  homem ficou  furioso  (ele  tempos  mais  tarde  e  sem  causa  atingiu  este mesmo cão a tiro de pistola) e fez uma queixa. Entretanto tinha chegado um novo Delegado do Procurador  da República,   e um dia  eu  fui  intimada  a  comparecer na  Delegacia.  – E  fui  eu, porque  fora eu quem travara um diálogo bem duro com o tal carcereiro… – Quero  dizer-lhe   que  este  Delegado era  ainda jovem,  muitíssimo  inteligente,   educado  e  sensível.  Mas  já  era famoso  na  cidade   pela  agressividade  dos  interrogatórios   que fazia.  – E pôs-me  uma  série  de  perguntas   por  causa  do  cão, focou  o sector social,  entrou pela senda  do racismo…  eu sei lá! Saí dali  “esfarrapada”, atrasada  para  as  aulas,  e  com  o  dia estragado.   Mais  do  que  amargura, eu  sentia  espanto.   E  foi esse  o caso  que  aproveitei  para  uma  das  crónicas que  escre­via  semanalmente   para  o  Notícias   da  Beira.   Resultado: desta vez pelo telefone,  fui chamada de novo  à Delegacia.  Eu estava com  paludismo,  mas  fui,  o  Afonso  levou-me.   E na belíssima tarde de  sol a primeira  frase  que  me foi dirigida logo  que  entrei e  dei  uns  passos  em  direcção  à  secretaria   do  Delegado,  foi esta: « Vou  mandá-la  prender .  Vou dar-lhe um ano  de  cadeia. Nem  a ignorância da  lei  pode  livrá-la,,.

Ele estava  de  pé.  Eu pedi-lhe que  me  deixasse  sentar.  Ele hesitou mas  mandou  que  me  dessem  uma  cadeira.   Sentou-se também,  e estendeu-me   um  papel  branco  onde  estava  colado o  recorte   da  crónica: ”- Foi  a  senhora que   escreveu  isto?

– Fui. – Isto é para mim? – Tem dedicatória? – Não.  – Então é  para  todos  os  que  o  lerem…  – E  este  ponto… ,  e  este… ” (e  ia  apontando frases  sublinhadas a  azul)  «- Coincidência…

– Não,  não.  A senhora  vai  ter  que  se  retractar   neste  mesmo jornal.  – Retractar-me  como?  – Vai escrever  uma  nota  para  o Notícias  da  Beira,  afirmando   que  esta  crónica não  tem  nada  a ver comigo.” Eu calei-me  por  segundos…  – «Se o sr .  dr .   quer ficar   célebre  em  Moçambique  eu  escrevo… ” Ele  irritou-se :

«- Porquê?  A  senhora  é  assim  tão  célebre? – infelizmente neste  momento  sou… ” Mais  um  silêncio.  “…  É que  se  eu  vou escrever:  “Fulana de tal,  quando escrevi  a crónica tal, não que­ria  atingir  o  Delegado  do  Procurador  da  República em  Porto Amélia” , os  jornais  dessa  data  vão  esgotar-se,  e  o  sr.  dr.  fica a  ser  conhecido na  província inteira.  Se  é  isso  que  quer,  eu escrevo… ”

Ele deu por terminado este teste (porque eu acredito que isto  foi  um  teste  que  me  fez)   e  a  conversa  que  se  seguiu mudou   de  tom.   Ele  tinha   compreendido muito   bem   que  eu lutava pelos  mesmos  motivos  humanitários  que  ele.  E pediu-me por fim que escrevesse  uma nova crónica que pudesse  fazer desaparecer  o  impacto  da  primeira – que  um  anónimo   lhe tinha  mandado.  Ele  também  se  chamava  Miguel …  E  foi  ele, depois   disto  se  ter  passado,  que  me  pediu   que  colaborasse com  os  presos  no recital  de  que  já falei.  Tornamo-nos  amigos, e  antes  de  sair  de  Porto  Amélia  ele  ofereceu-me  um  livro  de poemas  de  Aimé  Césaire.

Portanto  essa  crónica   a  que  o  Michel   se  referiu,  era  mais uma fuga  ao prometimento  que  eu tinha feito,  que  outra coisa… uma  espécie  de  necessidade de  espera… O  que   não  me impede  de acreditar,  agora  que  se foca  o assunto,  que  mesmo sem essa  intenção consciente,   eu não tenha  posto  no escrito  a preocupação subconsciente  dominante da  sociedade  de Moçambique  naquela  época…

 P. O  que  poderia,  para  uma  pessoa   de  fora,  chamar   a atenção,  era a pessoa  humilde  com  o seu  objecto  de trabalho, e o outro, que aparece,  que destrói sem respeito algum… Podia facilmente  ver-se…

 G. S’A. E  a sua leitura  do  texto…  Que  aliás  não invalida, antes  reforça a minha  opinião  do  que  é  « o  momento  de  criati­vidade,:  uma  força dominadora da  qual  se  pode  sair  exausto, e  mais  tarde,   já à tona  ficar  surpreendido  com  os  caminhos percorridos e até  aí existindo  desconhecidos…

 P. E nessa  sua  descrição,  nessa  sua  vontade  de  sugerir muito  mais   do  que  desenhar   completamente,  vejo,  em  con­ traste,  outro  tema  que  é  a  ideia  da  violência que  acaba  por explodir …

Estou-me  a  lembrar  do  poema  que  publicou no  nº 63  da revista  Colóquio/Letras,  o  poema  da  sentinela,   onde  esta  vio­lência   esta  subjacente,  não  aparece, e  acaba por  vencer   e destruir  tudo.  Mesmo  nas  crónicas  há  este  elemento  que  não se  combina bem  com  a  ideia  que  uma  pessoa  faz  da  perso­nalidade da  autora…

 G.S’A. – Pois é, pois é… Mas sabe que as pessoas não são bem como nós pensamos… E eu também não sou como as pessoas pensam, nem como eu penso que sou… Toda a tranquilidade aparente é uma calma que muitas vezes o sentido da injustiça desfaz… E então a revolta surge em desespero… – ou surgia. Porque hoje a intensidade do que me fere é muito atenuada pelo hábito da meditação, de uma certa autovigilância, de uma grande mágoa.

Edição da Fundação Eng.António de Almeida,1998, I Volume, pag.174 a 178

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