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AO RITMO DA MEMÓRIA

Novembro 16, 2016

Moçambique – Cabo Delgado   ( anos sessenta )

O maior embondeiro é o da Cumilamba o bairro de caminhos de areia onde o mar se desfaz deixando búzios e restos de algas.
É enorme.
E o largo tronco desproporcionado assenta em raízes grossas que se afundam poderosamente sugando o que será depois folhagem pequena e frutos para usar no caril.
Quando se passa parece que se evola do vegetal gigante uma aura tranquila e protectora.
Como se nos visse e nos cedesse um mínimo da sua alma de tempo.
Os nativos consideram os embondeiros árvores sagradas. Acontece verem-se presos aos troncos rectângulos de pano branco e logo abaixo no chão uma tigela com oferendas – em lembrança de alguém.
Não se cortam ramos de embondeiro para a fogueira. Apenas os frutos são colhidos porque no alimento haverá comunhão com a árvore.
Contaram-me que uma vez um administrador se predispôs a alargar uma estrada.
( Seguiria ela mais ou menos o traçado da picada marcada pelo alferes Campelo que sob as ordens do comandante de Marinha Jerónimo Romero – fundador da colónia agrícola de Pemba – escolheu o lugar estratégico para a construção de um fortim hexagonal na ponta de Miranembo, um dos fechos da Baía ).
A aspiração do administrador ia colidir com a existência de um embondeiro.
E os nativos recusaram-se a cortar a árvore.
O administrador que não estava a pedir mas a ordenar, ignorou as frases de “Embondeiro castiga quem o corta”. E o embondeiro foi cortado. Só que ao cair apanhou o administrador, matando-o.
Posso considerar este facto como uma lenda. Mas esta lenda contém a forma de aviso usada por muitos nativos quando contam uma história que tem como intenção ensinar outro a não prejudicar a cadeia ecológica e a respeitar a mitologia própria da sua cultura.
Mitologia essa pela qual fui abrangida.
Ao fundo do quintal da minha casa, perto do muro, nasceu uma planta para mim completamente desconhecida. Uma arvorezinha. E só reparei nela quando ela teria mais ou menos a altura de um dos meus filhos mais pequenos.
Encostei-me ao muro a olhar. E não havia ali nada de parecenças com as outras árvores – mangueiras, papaieiras, ateiras, amoreiras… Nem com a árvore de Stº António do jardim e muito menos com as casuarinas.
Maçanica ? A bravia de frutinhos em forma de maçã e de cujas folhas os coelhos e os cabritos gostam ? – Não.
Jambaloeiro cujos frutos parecem azeitonas e deixam a língua azul ? – Não.
Uva de macaco ? Nem pensar.
Mandioca ? Também não.
Chamei o Domingos, o guarda hortelão.
“Diz-me – que planta é esta ?”
Ele olhou-me com uma sombra de sorriso e não respondeu.
“Então ? Também não sabes ?”
“Sei, sim. Esta é a planta de Embondeiro”
“Como assim ? Donde é que podia vir ter aqui um embondeiro ?”
O Domingos pacientemente fez uma sugestão: “ Quando Malia vem à tarde e traz fruto de embondeiro para juntar no caril, espalha semente por aí. Alguma foi essa.”
Malia era a mulher de Domingos e ambos viviam ali e ali acendiam a fogueira. Lugar morno e calmo para conversar antes de dormir.
Tornei a olhar para ele e para a planta.
Havia na expressão da face dele qualquer coisa que me escapava. Como se entre o seu olhar e o seu sorriso estivesse o embrião de uma conjura.
“Tens a certeza ?”
“Sim senhor.”
Surgiu-me o pensamento de certa forma idiota e ridículo: “Já terei morrido há milhares de anos quando este embondeiro for igual ao da Cumilamba. Mas antes disso vai-me deitar abaixo o muro.”
Fitei o Domingos e com uma carga de desconfiança que ele nem merecia, disse-lhe:
“Vai lá buscar a enxada.”
Percepcionei nele uma hesitação muito intensa. Mas foi e trouxe a enxada já sem a mais pequena sombra de sorriso.
Começou a cavar.
E foi um espanto para mim a fundura a que iam as raízes, a força com que se agarravam, a quase elasticidade do pequeno tronco que era empurrado e voltava ao mesmo sítio.
A verdade é que não se conseguiu tirá-lo.
“Deixa lá – disse eu. Deixa lá.”
De repente o Domingos começou-se a rir.
“Senhora viu ? Senhora viu que ele não quis saír ? Pequeno e tudo ele não quer saír deste quintal. Embondeiro é assim. Só nasce e fica onde quer. E ele quer ficar da família deste quintal.”

 

O que pode uma pessoa contrapôr a uma verdade circunscrita à enorme força anímica de um país onde um ser humano acredita que um embondeiro a escolheu ?

 

Glória de Sant’Anna in ao ritmo da memória p.p 21,22 – 2002

One Comment leave one →
  1. Novembro 23, 2016 2:43 pm

    LINDO

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