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Moçambique – Chimoio

Junho 2, 2017

 

Moçambique – Chimoio
( anos setenta )

Estamos frente a frente. Eu tenho os braços nos braços da cadeira e a mão esquerda encostada ao queixo – posição que não durará muito porque eu gosto de me exprimir também com gestos. Apesar de não ser bonito, dizem.
Ele, do outro lado da mesa, não tem mais de vinte anos. Pousou a metralhadora sobre os joelhos e espera.
É altamente politizado e transmite no aperto de mão firme a aspereza da pele marcada de matope, de poeira, de mato.
Vem ao Regional para colaborar num programa informativo.
“O que é o povo ?”
É um desafio lançado com ironia e olhos sorridentes.
“Somos todos” digo eu abrangendo os entes míseros que povoam o planeta, e fugindo à definição das constituições doutrinárias escritas ou por escrever ainda.
Ele mantém o mesmo ar respeitoso sim, mas imensamente desafiador.
“Quer dizer-me um dos seus poemas em que haja povo ?”
Pego num papel e escrevo um dos poucos meus poemas que sei de cor.

POEMA DO MAR

O pescador está morto no fundo.
E o pé, lho sustém um coral.
Desfez-se o ‘mcota e está nu
– nu e livre dentro do mar.

Por seu rosto inda intacto e quieto
roçam algas delgadas e breves
e através dos olhos abertos
há liquidas imagens verdes.

Tem os braços erguidos. E as mãos
como pálidas flores desdobradas
atravessam serenamente
o compasso da água.

Quem o busca no cimo, não sabe
quão perfeito e completo ele está
assim preso pelo último coral
à memória de tudo o que amava.

E por isso todas as palavras
e apelos e gritos e lágrimas
se dispersam na sombra do vento
e no azul secreto da água.
..
E estendo-lhe a folha A4 para ele ler.
“Este é um poema que fala de liberdade.”
“Não entendo.”
“Repare.” E faço o que não gosto de fazer – explicar o que escrevo: “ – nu e livre dentro do mar.”
“Não está o pescador livre de repressões, ainda que só por força do mar ?”
Há um largo espaço de silêncio.
Ele bate duas ou três vezes na coronha da arma e fica muito sério.
Vira a cabeça e fita um ponto distante na parede.
Quando volta a olhar para mim os olhos já não são sorridentes. Trazem a veemência de mais perguntas que não faz.


Glória de Sant’Anna in ao ritmo da memória – 2002

One Comment leave one →
  1. M. EmiliaGil permalink
    Junho 2, 2017 1:08 pm

    Estamos sempre com a nossa saudosa mas perdida “pátria”, com a nossa saudosa Glória. Bem hajam os seus filhos que a não deixam esquecer

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