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Sobre a Autora

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Glória de Sant’Anna morreu a 2 de Junho de 2009. Pessoa extraordinariamente privada era, porém, perfeitamente acessível. Sem grande disposição para histórias indiscretas, era também generosa no tempo que se permitia partilhar com os outros. Ferida por circunstâncias que prolongavam destramente a acção do veneno que o regime político tão bem sabia administrar através de complacentes lacaios, no fim dos anos sessenta GdeS vê os 6 filhos partir (e foi assim quase de súbito embora / houvesse a predição destas coisas / quase de súbito porque a esperança é o adubo / único em que naufragámos).

Em desespero, o Poeta anula-se, fecha-se na sua dor e num recurso redentivo entrega a voz ao seu alter-ego. Azur. Ela canta um lamento que não é outro senão o lamento do Poeta, a voz transposta de uma existência adiada. É Azur quem sustém o Poeta na mágoa que completa o clima de lento terror […]

 RUI PAES Londres, 2009

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Por Giulia Spinuzza

“A terra está ficando toda de sangue”: poesia e guerra em moçambique

“The entire land is becoming blood-soaked”: poetry and war in mozambique

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“O objecto de estudo deste ensaio é a temática da guerra na produção poética de Glória de Sant’Anna, autora de origem portuguesa que viveu durante a época colonial em Moçambique. Os textos analisados, que constituem um exemplo da memória poética da Guerra Colonial (Ribeiro & Vecchi, 2011a), apresentam uma perspectiva feminina sobre o conflito e testemunham a partilha, por parte do sujeito poético, do drama dos portugueses, bem como da população local. Assim, demonstraremos que estes poemas, escritos numa fase tardia do colonialismo, entre 1961 e 1972, remetem para uma visão multifacetada do conflito. Na parte final do ensaio, iremos comparar um dos textos de Glória de Sant’Anna com um poema de Eduardo White, para demonstrar que os dois poetas, apesar de representarem conflitos diferentes, utilizam a mesma linguagem de indignação e dor perante o horror da guerra.”

http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0807-89672015000300014

Revista Diacrítica – 2015

 

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“A fulguração do instante como fundamento da serenidade na poesia de Glória de Sant’Anna

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A arte poética de Glória de Sant’Anna funda-se numa cuidadosa e atenta auscultação do real que a cerca e daquele que dentro de si ressuma. Sem adentrar-se nas fórmulas canónicas do realismo, são, contudo, os instantes manifestados pelo real – entendido este como mundo natural ou como mundo vivido e relembrado – que a despertam, maravilham e, muitas vezes, magoam: “As acácias guardam nas tímidas folhas / franjadas e límpidas / a doce ternura / da ausente cacimba.” (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”, 1988, p 65), “Tanto oiro na tarde / escorrendo do poente // as silhuetas das árvores / são fímbrias de poemas” (In Algures no tempo, 2005, p 21), “quem bateu à minha porta / limpou os pés / deixou os sapatos / e foi-se embora” (In Trinado para a noite que avança, 2009, p 33). Os instantes apreendidos pela poeta apresentam-se geralmente na sua dimensão pictural quer pela beleza das formas, quer pelo exotismo do cenário, quer ainda pela transposição para o poema de dadas ambiências climáticas e temporais: “Por cima dos claros, transparentes búzios / e das lentas algas, / a negra desfia seus tranquilos passos” (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”, 1988, p.63), “ O azul recente da manhã/ insinua-se/ pelo silêncio das plantas indefesas.// As casuarinas longamente/ hesitam/ entre o apelo do sol e os finos dedos// da brisa quase inútil.” ( Um denso azul silêncio, 1965, in “Amaranto”, 1988, p 135), “Dentro da madrugada clara / o vento é de vidro e a lua é de água, / e por entre as arestas das casas / o mar se alonga e arfa.” (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”,1988, p 71).
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De entre a multiplicidade de instantes vibráteis que assolam o imaginário poético de Glória de Sant’Anna encontramos igualmente motivos fortemente marcados pelo humano nas suas diversas facetas: o socioeconómico – “O menino é nu, / e alegre e claro: / veste-se da sombra / das árvores altas”. (Livro de Água, 1961, in “Amaranto”, 1988 , p.94), “ O pescador anda ao largo/ todo perdido do mundo/ – repartido entre o horizonte/ e o azul fundo.(…)// (Vai o destino passando/ ao mesmo tempo/ pelo pescador, pela rede,/ pelo mar e pelo vento).” ( Um denso azul silêncio, 1965, in “Amaranto”, 1988, p 138); o ético e moral – “O negrinho é morto / na noite densa. / (…) / de tão sozinho / de tão ausente, / quem o redime é o tempo.” (Poemas do tempo agreste, 1964, in “Amaranto”,1988, p 99); o urbano – “esguio parecendo / saído das pedrinhas dos degraus / entre um coração de vidro / e ferro duro moldado” (“O elevador de Stª Justa”, in E nas mãos algumas flores, 2007, p 21), “rua sofisticada dos artistas / e das horas românticas // agora os destroços calcinados / são sua vizinhança” (“Rua Garrett”, in E nas mãos algumas flores, p 18; é interessante notar aqui a impressão que o enorme e violento incêndio do Chiado teve, à época, no olhar da poeta); a guerra colonial –
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“Poema Décimo Primeiro”

A negra tombou entre os agrestes ramos
e um súbito espanto.

(está morta
e as aves cantam)
Do seu ventre aberto ao sol que se inclina
esvai-se o longo fio que a tecia.

(está morta
e o vento desliza)

Da face suspensa na folhagem magoada
descai o lenço que se desata.

(está morta
sob a claridade)

…toda já outra sobre o trilho que seguia
ausente das marcas de ódio que pisava
guarda entre os dedos longos da mão abandonada
sinais do áspero matope que a recolherá.

(está morta e as aves cantam
e a tarde se consome toda igual)
(Cancioneiro incompleto, temas da guerra em Moçambique, 1961-1971, in “Amaranto”, 1988, p.175)
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O tema da guerra colonial, na poesia da Glória de Sant’Anna, não pode ser desinserido de todo um ideário ético que trespassa a sua poesia, ideário esse que nos diz que ante o repulsivo de cultivarmos em nós uma qualquer espécie de infra humanidade, que frente ao que de aviltante tem a morte premeditada do Outro e que frente à horrenda injustiça que é privarmos esse Outro do seu direito inquestionável de estar vivo com dignidade e raízes, frente a tal território essencial nenhuma pele tem cor. Apesar da angústia, da nostalgia e dos vários momentos de profunda solidão interior que encontramos nesta poesia, Glória de Sant’Anna – e relativamente ao tema de que falamos, bem como ao livro que acabámos de referir – jamais abre mão, nem da sua solidariedade com o humano nem dessa sacralidade que é o estarmos vivos, independentemente de condicionalismos puramente acidentais, acerca disto leiam-se, por exemplo, os poemas: Sétimo, Nono e Décimo Terceiro do livro Cancioneiro incompleto.
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Finalmente, e de entre os instantes vibráreis e fulgurantes, ressalvemos o mundo dos afectos do qual podemos destacar, por exemplo, a amizade, veja-se o poema dedicado a Sebastião Alba – “bateu ao portão um dia / bateu ao portão / abri-o // vinha da estrela do norte / bebendo copos de vinho” (“Cantiga de amigo” in Algures no Tempo, 2005, p 16), e ainda o poema dedicado a José Craveirinha – “a areia morna / sorve os teus passos // e a tua fala / contida / retida nos olhos largos” (“Musicando arrabil” in Algures no tempo, 2005, p 27). Convém ainda enfatizar que estes instantes fulgor que acicatam todo um pensar de imagens de que Glória de Sant’Anna se serve na sua arte poética pode assumir duas variantes distintas e, por vezes, autónomas: ou cada estrofe é ela um agora fulgurante e descentrado na organização do poema, ou cada estrofe complementa todas as outras dando azo a que o instante seja agora a própria unidade poemática, como exemplo desta segunda faceta podemos citar o poema “Maternidade” incluído em “Um denso azul silêncio” (1965), poema este que, para além de ilustrar o que acabamos de dizer, dá uma amostra clara da posição da poeta relativamente à problemática da diferenciação étnica:
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Olho-te: és negra.
Olhas-me: sou branca.
Mas sorrimos as duas
na tarde que se adeanta.

Tu sabes e eu sei:
o que ergue altivamente o meu vestido
e o que soergue a tua capulana,
é a mesma carga humana

Quando soar a hora
determinada, crua, dolorosa
de conceder ao mundo, o mistério da vida,

seremos tão iguais, tão verdadeiras,
tão míseras, tão fortes
E tão perto da morte…

(…)

E ambas estamos certas
– tu, negra e eu, branca –
que é dentro dos nossos ventres
que germina a esperança.

A toda esta multiplicidade de estímulos que se impõem ao ver, à escuta e à interioridade perscrutadora da poeta soma-se o percurso existencial de Glória de Sant’Anna ela-própria, périplo cujas etapas, esperanças e desilusões Eugénio Lisboa tão bem expôs, com o rigor e a acutilância que todos lhe reconhecemos, no Prefácio de “Amaranto”. Ao que, por conseguinte, e como ponto de partida de toda uma poética, nos poderia aparecer como uma súmula de fulgurações visando o absurdo ou o arbitrário, ou ainda que este mesmo ponto de partida poderia apresentar as marcas de tantos dos estilhaços que a implosão do Realismo acabou por disseminar e que vão desde um niilismo burguês com roupagens neo-nietzschianas e de uma anarco-verbalização de cariz assumidamente aristocratizante a uma estética ostensivamente urbana com a consequente ostracização de todos os outros territórios nomeadamente o rural ou o etnicamente diferente, ao que, e como ponto de partida de toda uma poética – frisemos -, nos poderia conduzir a um percurso poético-estilístico mais condizente com o cânone – fluido e efémero como todos os cânones! -, Glória de Sant’Anna seguiu um caminho mais arriscado, mais solitário e, talvez por isso, mais magoado: cinde o ato perceptivo num misto de lucidez e de afastamento, cisão que mais não é do que o antídoto que protege a poeta de toda a emotividade extremada, frente à realidade vemos a autora absolutamente lúcida, mas também sabiamente anestesiada, numa palavra, serena: “ Aqui estou inteira:/ de memória ausente,/ sem fisionomia/ – como uma medalha “ ( Música Ausente, 1954, in Amaranto, 1988, p 51), “ Tudo é sereno e quase vago/ e parece fundir-se/ na minha própria lassidão.// Mas tudo só parece: o dia hoje caminha/ e leva-me de rastos pela mão.” ( Distância, 1951, in Amaranto, 1988, p 30), “ e prossigo por entre muitos seres/ empurrados aos variados alvos/ todos matéria igual em movimento/(…)/ de súbito suspendo-me// do meio da fuligem cor de rosa/ crescida do sol poente/ germina vagarosa para o ar/ a coroa de espinhos de Dezembro “ ( “Caminhando 2 “ in E nas mãos algumas flores, 2007, p 25), Repare-se, e ainda acerca do mesmo tema, no fenómeno de projecção, desvelado neste excerto de poema: “ e é sorrindo que a trazes lentamente/ mantendo a mesma face alva e serena/ e o mesmo calmo aceno alto e tranquilo// e é sorrindo e é firme que prossegues/ como uma espada erguida limpa e nua/ a prender na memória do metal/ o lixo das sargetas e o sangue pelas ruas// e é parecendo ausente que prossegues/ por onde há-de passar um dia o gume/ a isolar a verdade que procuras” ( in Gritoacanto 1970 – 1974, 2010, p 24).
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Glória de Sant’Anna, frente à multiplicidade temática e à diversidade imagística da sua escrita, não envereda por qualquer procedimento de heteronímia ou por um qualquer psicologismo assente em identidades múltiplas a dizerem-se de acordo com o tempo e o espaço da escrita. Nela encontramos sempre a mesma postura: aquela que vai da fulguração (maravilhada, nostálgica, magoada e algumas vezes mesmo – poucas – alegre ) do instante a uma aquietação do sentir a que chamamos serenidade. Eugénio Lisboa, no ensaio já citado, traduz exemplarmente esta tese: “Decantada de todo o supérfluo, só já conseguem detê-la, por um breve momento, estrelas e silêncios. Aí, nesse espaço rarefeito, ainda algum prodigioso encontro poderá ocorrer…” (in Amaranto, p 20).
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O mar adquire, por fim, essa dimensão justificadora e, diríamos mesmo, de base psicanalítica, não só de uma postura de acalmação, mas também da matéria-prima de um olhar e de um dizer poéticos: “Silêncio aberto/ de plenitude/ como uma ilha/ num lago fundo./(…) É este agora/ deste momento/ em que estando me ausento.” (Um denso azul silêncio, 1965, in Amaranto, 1988, p 123), “ Doce momento/ de entendimento.// Esperança liberta/ na água inquieta.// É o mar enorme/ quem intercepta o sofrimento.” (Livro de Água, 1961, in Amaranto, 1988, p 86), “ O pescador está morto no fundo./ E o pé, lho sustém um coral/ Desfez-se o m’cota e está nu/ – nu e livre dentro do mar.//(…) E por isso todas as palavras/ e apelos e gritos e lágrimas/ se dispersam na sombra do vento/ e no azul secreto da água.” (Desde que o mundo e 32 poemas de intervalo, 1972, in Amaranto, 1988, p 190). E é deste solo matricial: vivificador, apelativo e uterinamente aquífero que advêm quer a serena firmeza do olhar de Glória de Sant’Anna, quer a exactidão poética da sua palavra, geralmente nostálgica, mas sempre atenta: “Palavras me trespassam./ Claras frases. (Sem densidade quase).// Tão exactas,/ diluindo meu contorno (que inda sou).//(…) Que já não sei se estou/ obscura e idêntica,// ou broto sem defesa (repartida)/ na verde transparência de outra hora.” (Um denso azul silêncio, 1965, in Amaranto, 1988, p 131).

“ Mar “

Porquê sempre o mar?
Porque é concreto
está cheio de morto e certo

Na pálida esteira
que vamos deixando
tudo é origem-mar-humano

Eu própria, tu,
da cálida água
da transposta água andamos

Porquê sempre o mar:
é isso
– os mortos, as algas, as marés, os vivos.

(E também a forma
a cor, o tecido,
quando a claridade da hora o decide.)

in “ Amaranto “, p 202

A poesia de Glória de Sant’Anna é, por conseguinte, inseparável de um iniludível confronto com a imposição dos instantes, com o resplendor da paisagem africana que sempre assumiu e fez sua, com uma lucidez geralmente magoada e assente num voluntarioso desdobramento do eu e com a presença indelével do mar, substância originária a que tudo volta, mesmo quando o coração fica – intacto – “ junto à raiz das acácias rubras “ (cf. Amaranto, p 73), e é assim, de uma tecedura sabiamente doseada, que a escrita desta poeta irrompe, também ela, em constelações de indefectíveis instantes:

VICTOR OLIVEIRA MATEUS

Homenagem a Glória de Sant’Anna, VII Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, representante Delmar Maia Gonçalves – Fundação José Saramago 27 de Junho de 2014

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O SILÊNCIO DAS MANHÃS

há um silêncio todas as manhãs
aquece-me e amorna-me as faces
de ósseo toque

É fim da Primavera de 2009 e a Glória vai-se embora com a chegada das cerejas que pintam lábios de sangue.
O sangue está parado para mim, à espera que cicatrize a ausência do corpo. Corpo frágil mas profundamente forte de estrutura marcada pela serenidade da observação constante e de expressão breve na fala.

As manhãs surgem todas à mesma hora. O som dos passos, suaves, certos, breves, da Mãe, da mulher, da Autora.
A luz é sépia na madrugada com feixes coados por breve poeira que é levantada por uma ou outra cortina que é arrumada, a não ser que seja de trovoada e os relâmpagos desarrumem a cortina com feixes de luz cortante a lembrar as tempestades de África.
Esta África que em nós está gravada de maneira tão particular e quando digo nós, nós que estamos presentes.

Que me lembre deste silêncio da casa, de uma casa que foi movimentada e agora ainda calada, é porque muitos desses dias foi a Autora que a habitou, cortando-o com o som do teclado da máquina de escrever.
Foi da mulher que ensinou diariamente e a centenas de alunos língua Portuguesa, em todas as palavras de vanguarda foram na Autora os versos e as palavras prosaicamente escritas e determinadas.
– A Mãe, sempre! Aquela que nos pousa a mão e nos dá amparo, mesmo que parecendo severo para que a nossa existencial estrutura cresça através de perguntas.
– A Mãe, aquela que fecha a noite para a madrugada.

Para vos falar de Glória de Sant’Anna, fica-me o sabor ainda em dor. Pelo desamparo a que foi votada a sua poesia nos últimos quinze anos da sua vida, tentando propor a várias editoras as suas Obras e sempre recusada.
A partir daqui a Edição de Autor, que acompanhou até ao seu último livro em vida TRINADO PARA A NOITE QUE AVANÇA.

Foi quando a sonolência e dor da morte estavam mais presentes, que surge a proposta do Grupo de Acção Cultural de Válega, Vila onde o meu Pai nasceu, onde vivo e onde foi a última morada de Glória de Sant’Anna.

Propuseram-nos a nós filhos, que se organizasse um Prémio de Poesia com o seu nome, surge o PRÉMIO LITERÁRIO GLÓRIA DE SANT’ANNA que já vai no seu segundo ano.

Estamos empenhados para que o Prémio continue, para assim dar amparo à Poesia e fazer com que o nome da Glória se mantenha iluminado pelas mãos de outros Poetas que para já são dois:
Eduardo White no primeiro ano e Gisela Ramos Rosa este ano.

Inez Andrade Paes

Homenagem a Glória de Sant’Anna, VII Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, representante Delmar Maia Gonçalves – Fundação José Saramago 27 de Junho de 2014

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SOBRE POESIA E CINEMA: GLÓRIA DE SANT’ANNA, CHARLES CHAPLIN E UMA PONTE POSSÍVEL

 Guilherme de Sousa Bezerra Gonçalves – 2013

https://revistas.ufrj.br/index.php/mulemba/article/view/4984

 

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NA LINHA (SÓ) DE GLÓRIA DE SANTANNA
– em sua memória

no silêncio denso
da negra
madrugada

o canto lúgubre
da coruja

preludia
o Nada

António Saias – 12 de Setembro de 2013

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Widely regarded  by some as representing one of the highest  achievements in Mozambican lyricism, Glória de Sant’Anna’s work is ignored – delenda gloria – by many others. Six of her poetry collections were published in Mozambique. The silence which surrounds this poet seems to reflect  more on the ideological and racial preconception of the Mozambican canon – makers (many of whom are not Mozambican) than on considerations of her unique achievement, which is not generally dinied. The Portuguese likewise tend to treat her work with a similar silence, a refusal to engage in, rather a dismissal of, her work; the suggestion is that she cannot be placed within that tradition either. The poet is however held in high esteem by the Mozambican poets themselves and the lineage initiated by Glória de Sant’Anna is today one of the dominant traditions in Mozambican lyricism. A school teacher for most of her life, she worked in Porto Amélia (now called Pemba) and Vila Pery (now Chimoio). Glória de Sant’Anna, retired for many years, lived in Óvar, Portugal.

Luis Rafael – Stained Glass – Poetry from the Land of Mozambique, Roman Books, 2011 p.90

 CapaAntologiaStainedGlass

                                                                      Roman Books, 2011 / Capa pelo Pintor Chichorro

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Poema para um dia de chuva
de  Glória de Sant’Anna   por  Jorge Viegas

É um lugar comum que neste mundo faltam as pontes. Que a verdadeira comunicação é uma impossibilidade para os seres humanos, e que as palavras de boa vontade cheiram a bafio logo depois de serem ditas. Que, as mais das vezes, ou quem as disse, ou quem as ouviu, não acredita nelas.
A escritora Moçambicana Glória de Sant’Anna contraria, pelo testemunho da sua vida e pelos livros que escreveu, o lugar comum referido no parágrafo anterior. E o seu “Poema para um dia de chuva” é uma das provas mais insofismáveis da sua disponibilidade para aceitar os outros. Não comunicar, é estar mergulhado na solidão de uma noite infinda. Ciente desse facto a poetisa escreve: “A minha casa é um farol no meio da noite.” A sua hospitalidade é alheia a quaisquer catalogações: “Vem, sejas quem fores / ficarás a princípio como a haste de uma flor / gotejando sobre o tapete / e nós olhar-te-emos / da cor da chuva”. O sentimento de estranheza do visitante será momentâneo: “mas imediatamente, quase imediatamente / sentirás nas tuas as palmas quentes / das nossas mãos”.
A partilha dos sentimentos e das emoções resultará numa alegria contagiante: “E acharás no desenho dos nossos risos / a tradução da hora”.
Glória de Sant’Anna. Autora com onze livros publicados, nove dos quais são poesia. Uma senhora em quem a nobreza de porte condizia com a nobreza de dicção. Uma escrita depurada, não alheia aos dramas humanos vividos pelos Moçambicanos.
Nascida em Lisboa e estudante em Odivelas, as duas dezenas de anos que viveu em Moçambique tornaram determinante a temática Moçambicana na sua obra.

Leituras em diagonal – Fórum da Quinta do Conde, de 26 de Abril de 2011

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Na Antologia “O prisma das muitas cores” Organizada por Victor Oliveira Mateus

Poesia de Amor Portuguesa e Brasileira António Carlos Cortez, diz no Prefácio:

“Ora fugaz, ora eternizado, o amor confere ao tempo uma singular “temporalidade”: deixa de ser linear para ser circular e fazer-se contemplação; mas pode, como lemos em outros poetas, ser sinal do próprio tempo em si mesmo concentrado. Como se o amor fosse os dias em que se viveu o efémero – eterno, para sempre presente na memória, quanto mais ausente na carne (Casimiro de Brito, Glória de Sant’Anna, Joaquim Cardoso Dias, Lêdo Ivo, Maria Andresen, Maria do Rosário Pedreira, Nuno Dempster, Teresa Rita Lopes, entre outros).” Pag.16

CapaAntologiaOPrismaDasMuitasCores

                                                                     Editora Labirinto, 2010 / Capa de Júlio Cunha

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 […] Glória de Sant’Anna é vista como uma das escritoras moçambicanas-europeias e inicialmente os críticos tiveram dificuldade no que diz respeito a colocarem-na na categoria de poetas moçambicanos ou na categoria de poetas portugueses. O seu volume de poesia mais recente Solamplo (2000) é uma colecção de poemas relacionados com Moçambique, seleccionados de volumes anteriores da escritora e foi publicado em Moçambique com uma bolsa do Instituto Camões de Portugal, sinal, talvez, que ela irá eventualmente pertencer a ambas as tradições. […]

Frederick G. Williams in Poets of Mozambique, A Bilingual Selection 2006

                                                            2723739

Pub. Brigham Young University, Utah, USA / Universidade Eduardo Mondlane,  Maputo, Mozambique / Instituto Camões, Lisboa, Portugal

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Glória de Sant’Anna: uma poética de mar e silêncio!
Por CARMEN LUCIA TINDÓ RIBEIRO SECCO *

(…)
Por ter nascido em Lisboa e por ser sua poesia de cunho predominantemente universal, versando sobre temas existenciais, a poesia de Glória de Sant’Anna, durante algum tempo, não foi considerada como pertencente ao patrimônio literário moçambicano, embora grande parte de seus poemas tenha sido produzida durante os vinte e três anos vividos por ela em Moçambique. Consideramos esse critério bastante discutível, pois apenas leva em consideração a pátria de nascimento da autora, ignorando os pactos afetivos de identificação tecidos durante sua longa vivência em terras africanas.

Em 1951, recém-casada, Glória mudou-se para Nampula, cidade moçambicana onde viveu até 1953, ocasião em que se transferiu para Porto Amélia, hoje Pemba, outra cidade do litoral moçambicano.

Seus primeiros livros foram publicados nessa época: Distância (1951) e Música Ausente (1954). Nessas obras, é clara a desterritorialização do sujeito poético, cuja face, sobre o azul vogando (Sant’Anna, 1988, p.47 ) se revela perdida, refletindo a imagem da própria identidade fraturada que não se reconhecia ainda nas paisagens africanas. Com o coração inteiro/ no fundo do oceano (op.cit., p.35 ), o eu-poético tem consciência de seu naufrágio interior. Mergulha, então, nas marítimas águas do exílio e, através de uma linguagem poética reflexiva, procura alguns pontos de ancoragem com as fronteiras diluídas da pátria distante.

Nos dois primeiros livros de Glória, domina uma semântica de vaguidão. As reminiscências da voz lírica se encontram esmaecidas, sem nenhum referencial, a não ser o oceano de prata que se esvai em longínquos horizontes e se configura, ainda, como um território vazio de memórias, conforme denunciam os versos do poema Música Ausente: Na minha lembrança batem águas de vidro/de um mar sem sentido. (op. cit., p.53).

Nas composições poéticas dessa fase, amargura, degredo e solidão aprisionam o sujeito lírico que, sem uma fisionomia definida, se fecha em sua interioridade, à procura de elos emotivos capazes de equilibrarem sua subjetividade cindida entre duas pátrias.

É pela contemplação do mar de Pemba e pelo exercício da poesia, que consegue alento para ultrapassar o desenraizamento provocado pela saída da terra natal para viver em terras alheias.

À medida que se contempla existencialmente no espelho das marítimas águas, o sujeito poético vai-se encontrando e , naturalmente, começa a incluir em seus versos novas paisagens e pessoas. Do âmago das palavras emanam, então, emoções fraternas em relação ao povo moçambicano : Que importa seres meu irmão noutro país? (op.cit., p.56) indaga-se o sujeito lírico, com o coração já se abrindo aos novos horizontes.

Cartografias geográficas, culturais e humanas de Moçambique vão, aos poucos, integrando o imaginário literário da poesia de Glória de Sant’Anna, que, lentamente, passa a captar os ritmos e batuques africanos (poema Batuque, op. cit. 63), como também as danças das negras à beira-mar:

Negrinha faceira,
dentro da água cálida,
quem olhará
tua graça?

Ou quem verá teu riso
esparso
entre uma onda translúcida
e um sargaço?
(…)
Os teus pés estão sobre os búzios claros
e vazios,
e há música e sol
em teus ouvidos.

Mas quem passa, deixando pegadas na areia
não olha para ti, negrinha faceira.
(Sant’Anna, 1988, p.62)

Laureada com o prêmio Camilo Peçanha, em 1961, por seu Livro de Água, Glória de Sant’Anna tornou-se reconhecida literariamente.

Continuou a escrever nos anos 60 e 70, e sua obra se manteve fiel à linha existencial por que optou desde o início de sua trajetória poética. Embora acompanhasse as mudanças sociais por que passava a sociedade moçambicana, a poesia de Glória, nos anos de guerra a que ela chamou de ‘tempos agrestes’, não enveredou pelo ethos militante e revolucionário que dominou o panorama literário de Moçambique nesse período. Apesar de muitos de seus poemas terem denunciado os malefícios dessa época de lutas e violências, sua poética fez a opção pelo silêncio e pela metáfora, alinhando-se, por isso, ao lado dos poetas do Grupo Caliban, como Rui Knopfli, Sebastião Alba, entre outros, que, para driblarem a censura e repressão, enveredaram por caminhos poéticos universalistas e existenciais, (…)

No poema Sexto do livro Cancioneiro Incompleto (temas da guerra em Moçambique, 1961-1971), de Glória de Sant’Anna, o sujeito poético condena a violência que destruiu os macondes, cujas esculturas celebra:

(…)
(cada figura crescia de suas mãos negras
como se brotasse da sua própria fina pele
solta para a claridade e portadora
de igual agreste impulso
e em seu rosto
e em suas pupilas alagadas
era o mesmo secreto tempo de amar )
(p.167-168)

Por entre sons de canhões e agrestes perplexidades diante da morte de pessoas inocentes, a poesia de Glória capta também a suavidade do mar, o canto dos negros e os tã-tãs dos tambores moçambicanos (Op. cit., p.201). Por entre os silêncios de lucidez crítica, seus versos assumem a consciência do fazer estético e, em meio às lacunas da denúncia explícita da opressão, teoriza sobre sua própria arte poética:

Um poema é sempre
uma qualquer angústia que transborda.

(E eu posso cantá-lo de amor
posso cantá-lo de ódio
posso cantá-lo de roda…)

Um poema é sempre
como um rebento novo que se desdobra.

(E eu posso cantá-lo ao sol
posso cantá-lo de água
posso cantá-lo de sombra…)

Um poema é sempre
como uma lágrima que se solta.
(E eu posso cantá-lo como quiser:
há sempre uma palavra que me esconda…)
(Sant’Anna, 1988, p.97)

Metalinguagem, sensibilidade e silêncio levam a voz lírica a profundas reflexões sobre a sua textualidade poética que, de grito a canto, se reconhece mar, vento, som, melodia. O oceano traz as correntes submersas da memória. Mudanças atmosféricas marcam o ritmo introspectivo das lembranças e das catarses históricas.

(…)

A poética de Glória de Sant’Anna, como a poesia de Rimbaud, de Hölderlin, de Cecília Meireles, mergulha no silêncio e na musicalidade da linguagem, no ‘mar absoluto’ da própria poesia.

Captando a melodia cósmica das palavras, apreende a emoção do inexprimível, os sentidos profundos do existir humano universal:

Eu naveguei pelo interior de um longo rio humano de/ tempos diversos onde também há sangue vegetal,/ buscando o que acabei por encontrar a imensa/ angústia que se reparte./Sobre isso escrevo./Mas cuidado: a música da palavra é um casulo de/ seda./Só dobrando-os com olhos atentos se chega à/verdade, à solidão ansiosa e disponível./No entanto, que cada um faça a sua leitura.

(SANT’ANNA, 1988)

É uma poesia que faz opção pelo silêncio. Um silêncio, cujo significado ‘fala’ mais que o de poemas explicitamente engajados com o real histórico, pois é tramado pela densidade de emoções e sentimentos despertados por situações várias: de beleza, de ternura, de ódio, de dor, de medo , de angústia, de saudade.

Quando a autora, em 1974, teve de regressar a Portugal, o retorno à pátria se converteu para ela num segundo exílio.

Arrancada do mar de Pemba de que se alimentara por longo tempo, a poetisa ficou vários anos sem conseguir escrever, agora, num silêncio concreto, sem palavras. Ao recuperar a linguagem, mergulhou de novo no mar, em cujas águas, transformadas em canto, passaram a ressoar memórias, por intermédio das quais a voz lírica se reconheceu livre e inteira: eis-me solta de todas as amarras da canga a que forcei o pensamento de novo imersa nessa pura água em que me identifico e apresento.

(SANT’ANNA, 1988, p. 289)

Mar e silêncio, na obra de Glória, passam a conotar depuração. Depuração de sentimentos e emoções que não se traduzem em linguagem comum, mas que se revelam na expressão indizível das metamorfoses da própria poesia:

A essência das coisas é senti-las
tão densas e tão claras,
que não possam conter-se por completo nas palavras.

A essência das coisas é nutri-las
tão de alegria e mágoa,
que o silêncio se ajuste à sua forma sem mais nada.

(SANT’ANNA, 1988, p. 126)

Mar, música e silêncio fluem na sacralidade poética instaurada pelo discurso de Glória de Sant’Anna, para quem a literatura, acima de ideologias, de partidos, de nacionalidades, de etnias ou de gêneros, assume um compromisso maior com os valores humanos e com a essência universal da arte e da própria criação poética.

Maternidade

Glória de Sant’Anna

Olho-te: és negra.
Olhas-me: sou branca
mas sorrimos as duas
na tarde que se adianta.

Tu sabes e eu sei:
o que ergue altivamente o meu vestido
e o que soergue a tua capulana
é a mesma carga humana

Quando soar a hora
determinada, crua, dolorosa
de conceder ao mundo o mistério da vida,

seremos tão iguais, tão verdadeiras,
tão míseras, tão fortes
e tão perto da morte…

que este sorriso de hoje,
na tarde que se esvai,
é o testemunho exacto
do erro das fronteiras raciais.

Dos nossos ventres altos,
os filhos que brotarem
nos chamarão com a mesma palavra.

E ambas estamos certas
– tu, negra e eu, branca –
que é dentro dos nossos ventres
que germina a esperança.

(de Sant’Anna, Glória. Um Denso Azul Silêncio, 1965)

Gritoacanto

Glória de Sant’Anna

eu canto as gentes vivas e as ausentes
as coisas por fazer ou já desfeitas
as empenas das casas levantadas
as empenas das casas esqueléticas

o vento a flor a pedra a dor a chuva
o perfil a palavra a mão a fome
o verme o pássaro o insecto a nuvem
e o mar e o grito e o pão que o tempo absorve

mas sobretudo eu canto ai sobre todo
este morrer de amar cada segundo
horizontes por que me desfiguro
à mortal palidez de um céu inútil
(de Sant’Anna, Glória. Amaranto, 1984)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

• BOSI, Alfredo. O Ser e o tempo da poesia. SP: Cultrix, 1983.

• SANT’ANNA, Glória de. Amaranto: poesias 1951-1983. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda,1988.

• STEINER, George. Linguagem e silêncio: ensaios sobre a crise da palavra. SP: Cia das Letras, 1988.

* CARMEN LUCIA TINDÓ RIBEIRO SECCO – Doutora em Letras Vernáculas e Profª. de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade Federal do Rio de Janeiro- UFRJ.

Glória de Sant’Anna: O Silêncio Íntimo das Coisas

No Moçambique que precedeu a independência, a qual teve lugar em 25 de junho de 1975, muita coisa aconteceu, como não é sabido de toda a gente. Na realidade não é sabido de quase ninguém, exceto de uns poucos (e não todos) que lá viveram.

Em Portugal, de Norte para Sul e de Sul para Norte, entre Ovar e o Algarve, tentando reencontrar o rumo que não havia (o mar, que é bom “porque é concreto”, ficara para trás), Glória de Sant’Anna foi sobrevivendo ao rés de um desespero nem sempre inteiramente dominado. Durante vários anos arredada do “seu” mar, que era em Pemba, e de “sua” escrita, que dele se alimentara, Glória de Sant’Anna fixou-se finalmente em Ovar: – “Atualmente, na minha condição de aposentada, reparto o tempo pela casa e pela família e ajudo o meu marido num gabinete de arquitectura e obras, que abriu perto daqui.”

(Lisboa, Eugénio. Amaranto. Londres, 1984)

Obras Literárias

• Livros de Poemas:

Distância, 1951; Música Ausente, 1954; Livro de Água, 1961; Poemas do Tempo Agreste, 1964; Um Denso Azul Silêncio, 1965 e Desde que o Mundo e 32 Poemas de intervalo, 1972, Amaranto, 1984, Não Eram Aves Marinhas, 1988 e Zum-Zum, 1996. Em 1984, fez publicar um volume que inclui 4 livros inéditos: A Escuna Angra (1966-68); Cancioneiro Incompleto (1961-71); Gritoacanto (1970-74) e Cantares de Interpretação (1968-73).

• Crônica:

…Do Tempo Inútil, 1975.

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O “não-dito” de Glória de Sant’Anna

por Almiro Lobo

Glória de Sant’Anna por Almiro Lobo, 1997

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Glória de Sant’Anna

[…] Se manifesta como poeta en los años cincuenta y tiene en su haber notables libros publicados. Su lírica, limpia, desnuda y humanista, sin duda roza en muchas ocasiones con la problemática social. El sentimiento que expresan sus poemas es ciertamente solidario con la gente africana.

[…] En los últimos años de la década de 1950 existe ya un buen grupo de poetas maduros e diferenciados de las generaciones anteriores, como es el caso de Glória de Sant’Anna y de Rui Knopfli. Cabe también mencionar a otros, de enorme importancia, como Fernando Couto, Fernando Ganhão, Gouvêa Lemos, Irene Gil, Manuel Filipe de Moura Coutinho y Nuno Bermudes. Con ellos y las generaciones citadas se consolida la poesía en este país con un nuevo lenguaje, diferenciado del de la metrópoli; […]

Xosé Lois Garcia. Poesia Mozambicana del Siglo XX “Poesia en acción:OLIFANTE, Ediciones de Poesia,1987, pp13-41.

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DE SANT’ANNA GLÓRIA

Fogo dentre algas
alvor

seres dAzur (Glória
de Sant’Anna da baía de Pemba)

breve a
morder-se meigo
só.

Lodosa boca (a boca)
o delírio
drenas.

Bolso aberto
às aves.
Poucas são

as mulheres (às vezes)
desde o início
da chama

silenciosamente
silenciosamente

David Mestre in Do Canto  à Idade – Editora Centelha, 1977 pag. 77

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