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In TEMPO AGRESTE

Dezembro 19, 2015

GdSA no Noticias da Beira 20 de Agosto de 1969 no site

   Glória de Sant’Anna – Notícias da Beira,  Moçambique, 1969

A CORUJA

Novembro 21, 2015

tem asas de uma grande envergadura

e no brando lusco fusco matutino
volta a cabeça e olha-me

eu pergunto: és ATENA?

e do seu vulto quase transparente
tomba lenta uma pena

e o bico adunco
solta o que parece um largo riso

as asas fecham

e eu solto também o meu sorriso
pra lá do lusco fusco

ao dia que se acende

 

Glória de Sant’Anna – Outubro de 2008, Jornal de Válega

CÂNTICO

Outubro 4, 2015

do longe mais longe
a chama d’angústia
o murmúreo
a culpa
o grito
a ternura

do longe mais longe
surge

trespassa-me o peito
sendo espada nua

 

Glória de Sant’Anna in Trinado para a Noite que Avança – 2009 

AFONSO

Agosto 27, 2015

reconheces as costas africanas
como havendo o soprar de um vento novo
nos ramos velas dessas caravelas
que comandas Diogo

 

e com Antão Gonçalves e Gomes Pires navegas
à cobiça já feita ao Rio do Oiro

 

entras também na frota dos que a Arguim
sugam pelos olhos largos sua fome
o mesmo Antão e o Garcia Homem

 

e frente a Arguim mais um cabo vos cabe
aquele ali Antão o do Resgate

( resgate a quê a quantos muitos negros
trazes para Lisboa por que medos )

– e o Infante em Viseu clama o seu quinto
do lucro dessa gente prisioneira –

ai navegantes das lusas grandes barcas
de que sois capitães e sois negreiros

1444/1445

Glória de Sant’Anna in Não Eram Aves Marinhas, 1988

Gritoacanto 1970-1974

Julho 18, 2015

porque tem que ser que ninguém saiba (ou suspeite)
para que entre vós e eu não se levante
uma inútil e alheia espada
oculta em cada caule de cada flor lançada
à minha fronte

tem que ser navegando a longa noite
o meu rosto como proa ao mar largo
sem bússola ou sextante ou estrela polar
para que entre vós e eu não se levante
a neblina da inquietude

quero-vos assim e vogareis nas palavras
que hajam de ser ditas mesmo assim tão ténues
estareis parecendo
que ninguém saberá a força com que me destruis
porque vos estou sopeando e contendo

e acharão natural que sob uma ou outra flor
lançada à minha fronte
haja um vago palor de fadiga e de assombro

 

Glória de Sant’Anna in Gritoacanto 1970-1974 – Amaranto, 1988

Junho 14, 2015

AndradePaesXACARA CR

Xácara

Maio 28, 2015

Na poeira meiga do caminho morno,
aquela negrinha,

(Quem era
por sob
o cílio suspenso
e o rosto sem nome?)

Na luz inclinada da tarde macia,
aquela negrinha todos os dias.

( Quem era
por sob
as densas ramadas
até lá longe? )

Na tarde cansada,
aquela negrinha…

( Quem foi o m’kunha
que a vestiu bonita
e fez de seus olhos
uma coisa antiga ?)

Aquela negrinha na tarde cansada,
correndo infantil de cílio suspenso,
de chita vermelha, de face voltada,
era mais feliz
do que eu penso.

Glória de Sant’Anna in Música Ausente, 1954 (p.p.69,71)