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Novembro 8, 2017

até que volte a ver-vos me reconhecereis
não pela face desnecessária mas
porque aí estareis apenas

Glória de Sant’Anna in GRITOACANTO, 1970 – 1974

GRITOACANTO

Outubro 10, 2017

[…]

ai e caminhas em busca do horizonte
que mergulha em teu rosto alongado e tão puro

tacteando (ai quase sim quase tacteando ainda)

o que te envolve de novo e aparente
mente a procura que te anima

tão longo caule tenro te transformas
no entanto mantendo aquela fina
incontrolável ânsia de ternura
que em todo o tempo foi teu próprio nome

Glória de Sant’Anna in GRITOACANTO 1970-1974

Setembro 26, 2017

Setembro 9, 2017

Eduardo White / Comentário a uma pergunta.

Pelo que me é dado a conhecer a escrita de Eduardo White é de uma intensa beleza.
Uma inteligência devastadora conduz a emoção pelas palavras, transforma-as, cria paisagens e áreas de conhecimento.
Se eu submeter Eduardo White a um título, direi que ele luta. E a luta em todas as dimensões é de Jacob e o Anjo.
Mas não vou submetê-lo senão ao meu apreço na literatura. E ao voto que se prossiga o seu trilho.

Glória de Sant’Anna, 14 de Junho de 2008

GRITOACANTO

Julho 7, 2017

porque tem que ser que ninguém saiba (ou suspeite)

para que entre vós e eu não se levante

uma inútil e alheia espada

oculta em cada caule de cada flor lançada

à minha fronte

 

tem que ser navegando a longa noite

o meu rosto como proa ao mar largo

sem bússola ou sextante ou estrela polar

para que entre vós e eu não se levante

a neblina da inquietude

 

quero-vos assim e vogareis nas palavras

que hajam de ser ditas mesmo assim tão ténues

estareis parecendo

que ninguém saberá  a força com que me destruis

porque vos estou  sopeando e contendo

 

e acharão natural que sob uma ou outra flor

lançada à minha fronte

haja um vago palor de fadiga e de assombro

 

Glória de Sant’Anna in Gritoacanto 1970-1974 – Amaranto, 1988

Moçambique – Chimoio

Junho 2, 2017

 

Moçambique – Chimoio
( anos setenta )

Estamos frente a frente. Eu tenho os braços nos braços da cadeira e a mão esquerda encostada ao queixo – posição que não durará muito porque eu gosto de me exprimir também com gestos. Apesar de não ser bonito, dizem.
Ele, do outro lado da mesa, não tem mais de vinte anos. Pousou a metralhadora sobre os joelhos e espera.
É altamente politizado e transmite no aperto de mão firme a aspereza da pele marcada de matope, de poeira, de mato.
Vem ao Regional para colaborar num programa informativo.
“O que é o povo ?”
É um desafio lançado com ironia e olhos sorridentes.
“Somos todos” digo eu abrangendo os entes míseros que povoam o planeta, e fugindo à definição das constituições doutrinárias escritas ou por escrever ainda.
Ele mantém o mesmo ar respeitoso sim, mas imensamente desafiador.
“Quer dizer-me um dos seus poemas em que haja povo ?”
Pego num papel e escrevo um dos poucos meus poemas que sei de cor.

POEMA DO MAR

O pescador está morto no fundo.
E o pé, lho sustém um coral.
Desfez-se o ‘mcota e está nu
– nu e livre dentro do mar.

Por seu rosto inda intacto e quieto
roçam algas delgadas e breves
e através dos olhos abertos
há liquidas imagens verdes.

Tem os braços erguidos. E as mãos
como pálidas flores desdobradas
atravessam serenamente
o compasso da água.

Quem o busca no cimo, não sabe
quão perfeito e completo ele está
assim preso pelo último coral
à memória de tudo o que amava.

E por isso todas as palavras
e apelos e gritos e lágrimas
se dispersam na sombra do vento
e no azul secreto da água.
..
E estendo-lhe a folha A4 para ele ler.
“Este é um poema que fala de liberdade.”
“Não entendo.”
“Repare.” E faço o que não gosto de fazer – explicar o que escrevo: “ – nu e livre dentro do mar.”
“Não está o pescador livre de repressões, ainda que só por força do mar ?”
Há um largo espaço de silêncio.
Ele bate duas ou três vezes na coronha da arma e fica muito sério.
Vira a cabeça e fita um ponto distante na parede.
Quando volta a olhar para mim os olhos já não são sorridentes. Trazem a veemência de mais perguntas que não faz.


Glória de Sant’Anna in ao ritmo da memória – 2002

Abril 11, 2017

Glória de Sant’Anna por Da Costa Maya – 1981 Malmö – Suécia