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Outubro 11, 2020

QUANDO O SILÊNCIO É SUJEITO – TRIBUTO A GLÓRIA DE SANT’ANNA

 

Por Maria da Glória Paula

Enternecem-me as palavras de Glória de Sant’Anna, poeta de Portugal e Moçambique, porque o diálogo poético com as árvores e o mar está para além das fronteiras convencionais e porque a sua nação foi e é o mundo inteiro, grande, distante, rico e diverso, onde correm rios humanos. Uma dimensão do mundo e da humanidade que só o amor maior alcança. Justa homenagem lhe prestam os antigos alunos de Moçambique, amigos, familiares e críticos literários.

 

Agosto 8, 2020

QUANDO O SILÊNCIO É SUJEITO – TRIBUTO A GLÓRIA DE SANT’ANNA

 

Por Álvaro Carmo Vaz

 

Edmundo Galiza Matos e Luís Loforte, homens da nossa rádio e antigos alunos de Glória de Sant’Anna, tiveram a excelente ideia de fazerem um livro-tributo a essa sua professora, juntando aos seus depoimentos os de outros antigos alunos dela, em Pemba, na altura chamada de Porto Amélia. E não só levaram a ideia para a frente mas alargaram-na, com depoimentos de outros que, não tendo sido alunos de Glória de Sant’Anna, com ela conviveram, e com alguns ensaios críticos sobre a sua obra.

Para mim, que quase nada sabia de Glória de Sant’Anna para além da sua poesia, que nunca estive na sua presença, que apenas há poucos meses conheci (por troca de mensagens electrónicas) a sua filha Inez, também poeta (e pintora), este livro, de que gostei muito, permitiu-me completar a imagem que eu fazia dela.

O livro fê-lo apresentando a pessoa que ela era: a professora (de Português, Francês e Inglês!) que, sem abdicar do rigor, conduzia os estudantes com a suavidade da sua voz, com as suas iniciativas, como os saraus de poesia; a mãe que acolhia em casa, com os filhos, os seus estudantes, de todas as raças, de todas as classes; aquela que, com o marido, Afonso Andrade Paes, arquitecto e empresário, olhava para todos simplesmente como pessoas; a radialista que, com o programa de “discos pedidos”, abriu as portas do pop e do rock em Porto Amélia.

Quase todos os depoimentos contribuíram para formar esta ideia sobre Glória de Sant’Anna e sobre o impacto que ela e o marido tiveram sobre tanta gente. Gostei particularmente de ler os de João Carlos Trindade, João Zamith Carrilho, Luís Loforte e Mia Couto, assim como o do artista makonde Augusto Chilavi sobre o arquitecto Andrade Paes. Na parte dos ensaios críticos, para além do de Eugénio Lisboa, que já conhecia, gostei bastante do de Fátima Mendonça, “Homenagem a quatro tempos”. E o livro proporcionou também o reencontro com os seus poemas, aqueles versos que há cinquenta anos me encantam.

O meu encontro com Glória de Sant’Anna, com a sua poesia, surgiu por obra do acaso, nunca tinha ouvido falar dela. Foi nos finais da década de sessenta, na Minerva Central, estava a folhear livros, como habitualmente, a ver se algum me despertava aquela ânsia de ter de o possuir. Foi o que me aconteceu ao dar com “Um denso azul silêncio”, talvez tenha sido o título a atrair-me. Bastou-me ler dois ou três poemas para ficar logo enredado, irremediavelmente fisgado, eu que já andava apaixonado pela poesia de Sophia, de quem Glória de Sant’Anna me parecia a contraparte índica, tal a força que a água, o mar, o azul têm na poesia de ambas. Nunca mais deixei de a ler mas os livros dela foram-me desaparecendo graças à minha tara de impor aos amigos a leitura dos livros de que gosto muito e de me esquecer de os pedir de volta.

No meu livro “Um Rapaz Tranquilo – Memórias Imaginadas”, pus o protagonista, Pedro, a oferecer “Um denso azul silêncio” a Guida, colega de liceu por quem estava enamorado, depois de ler o poema “Acácia rubra”. E, mais tarde, em carta a Guida, Pedro refere com entusiasmo um outro poema de Glória de Sant’Anna, “Poema Sétimo”. Foi a minha forma de prestar um modesto mas sentido preito a esta grande poeta (e, sei-o agora, uma grande professora, uma grande figura humana).

Atrevo-me a fazer uma sugestão ao nosso município, ao presidente Eneas Comiche. Tendo nós na nossa cidade ainda tantas ruas 513.2 (embora sem distinção para justificar Crónica), porque não dar a algumas delas os nomes dos nossos poetas, Glória de Sant’Anna, João Pedro Grabato Dias, Sebastião Alba, Eduardo White, Heliodoro Baptista, Virgílio de Lemos, Alberto de Lacerda, em justa homenagem, como já foi feito para Reinaldo Ferreira, Gulamo Khan e Rui Knopfli? Subscrevo por inteiro o que escreveu Eugénio Lisboa sobre Glória de Sant’Anna:

“Julgo que Moçambique só tem a ganhar se reivindicar, para a poesia moçambicana, o nome de Glória de Sant’Anna. Como Portugal só terá a perder se o não reivindicar para a poesia portuguesa.”

Em Moçambique, os livros de Glória de Sant’Anna não se encontram à venda nas livrarias. Ecoo as palavras de Mia Couto no seu depoimento, o que ele referiu como “um desafio inadiável”:

“É preciso divulgar os seus versos, é urgente que a voltemos a publicar. E que a publiquemos em Moçambique e em Portugal. E em todos os outros lugares. “

“Quando o Silêncio é Sujeito – Um Tributo a Glória de Sant’Anna”

Julho 27, 2020

 

Prémio Literário Glória de Sant’Anna

Junho 26, 2020

Programa DIÁSPORA de Luís Lucena – RDP África

 

 

26 de Maio de 1925

Maio 26, 2020

 

Glória de Sant’Anna in E nas Mãos Algumas Flores, edição da autora – 2007

Maio 24, 2020

Comunicado de Imprensa de 18 de Maio de 2020  

“Quando o Silêncio é Sujeito – Um Tributo a Glória de Sant’Anna”

Maio 24, 2020

 

Como eu me lembro de Glória de Sant’Anna.

Em 1968, quando comecei a escrever e a publicar poemas, já Glória de Sant’Anna era um nome consagrado em Moçambique. Um daqueles poetas que admiramos à distância. Nunca tendo ido a Pemba, não a conhecia em pessoa.

Um dia, para vaidade e surpresa minha, recebi pelo correio dois livros seus, autografados — «Um Denso Azul Silêncio», de 1965, e «Desde Que o Mundo e 32 Poemas de Intervalo», publicado em 1972, com ilustrações de Teresa Roza d’Oliveira.

Só nos conhecemos pessoalmente em Julho de 1974, na tarde do dia 27, o sábado em que Spínola reconheceu o direito à independência das Colónias, dando início ao processo de descolonização. O nosso encontro aconteceu por mero acaso, no gabinete de Rui Knopfli, então director do vespertino «A Tribuna», instalado no mesmo edifício do «Notícias». Não me recordo se ouvimos juntos o discurso do general. Sei que ficou combinada uma carilada de amendoim para a noite do dia seguinte, em casa do Rui, na Bellegarde da Silva, ou seja, na actual Avenida Francisco Orlando Magumbwe, de Maputo.

Esse jantar, em que também esteve presente o poeta Sebastião Alba, foi o nosso (meu e de Glória de Sant’Anna) segundo e último encontro.

Em Portugal, novo desencontro. Glória de Sant’Anna vivia em Ovar, no distrito de Aveiro, e eu em Cascais, nos arredores de Lisboa. Mas quando, em 1988, a Imprensa Nacional publicou «Amaranto», a reunião da sua poesia, escrevi uma recensão crítica que saiu no n.º 108 (Março de 1989) da revista «Colóquio-Letras», da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ficou a sua poesia, clara, luminosa, atenta aos sinais da terra. Isso basta.

— Eduardo Pitta, in QUANDO O SILÊNCIO É SUJEITO, Pemba & Sêwi Editores, 2019.

 

DA LITERATURA blog de Eduardo Pitta

blog DA LITERATURA de Eduardo Pitta

 

 

PRECE

Abril 19, 2020

“Quando o Silêncio é Sujeito – Um Tributo a Glória de Sant’Anna”

Março 7, 2020

Ainda no âmbito desta colectânea de memórias, ensaios e crónicas escreve
Álvaro Carmo Vaz na sua “Carta Semanal

7 de Março de 2020 – Maputo, Moçambique

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Álvaro Carmo Vaz é Engenheiro Civil e Professor na Universidade Eduardo Mondlane                         desde 1972, reformou-se em 2007, como Professor Catedrático.

 

 

 

Um Tributo a Glória de Sant’Anna

Fevereiro 12, 2020

“Quando o Silêncio é Sujeito – Um Tributo a Glória de Sant’Anna”
Colectânia de memórias, ensaios e crónicas, estará à venda a partir do dia 26 de Fevereiro em Maputo.
A sessão de lançamento será, no dia 6 de Março, no estúdio Auditório da Rádio Moçambique.
Transmissão em directo e na íntegra na Antena Nacional (92.30MHz), a partir das 16H30 (hora local)
Através do site www.rm.co.mz, para todo o mundo.

Dezembro 22, 2019

POEMA

Julho 15, 2019

A água é funda, a água é funda.
Não tem destino que se pressinta.
(O que nos liga são nossas mágoas
e nossas iras.)

A água é grave, a água é grave.
Não há remorso que a dilacere.
(O que nos liga são nossa fome
e nossa espera.)

A água é pura, a água é pura.
Não há segredo que a deteriore.
(O que nos liga são nossas ilhas
e nossos mortos.)

 

Glória de Sant’Anna in Amaranto (p.110) Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988

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http://www.banquetepoetico.com.br/2014/06/gloria-de-santanna_19.html

 

Nocturne

Abril 26, 2019

 

The night sleeps a draw-out and invisible slumber

inside the slender fingers of the still trees

 

next to the dainty birds with absent eyes

in that clear daybreak about to emerge.

 

The fullness of the blue silence spreads its presence,

and a quivering breeze that doesn’t even exist pretends to stir,

 

(and it would draw the contours of the still and faint walls

without daring to reach that secret and impenetrable intimacy of the stones).

 

Everything is inside the fixed mark of its own boundary.

 

Only the sea rises up and restlessly reflects

the useless and tired vigil of the stars.

 

Glória de Sant’Anna

From Um Denso Azul Silêncio, 1965 – Translated  by Luis Rafael

 

https://www.academia.edu/5304167/Gl%C3%B3ria_de_SantAnna_Four_Poems_Staffrider_

TERESA ROZA D’OLIVEIRA

Abril 8, 2019

O PGL fala com a filha da poeta Glória de Sant’Anna

Fevereiro 22, 2019

Glória de Sant’Anna por Andrade Paes, Porto Amélia, Moçambique, 1969

 

http://pgl.gal/inez-andrade-paes-premio-gloria-sant-anna/

Janeiro 22, 2019

Dezembro 20, 2018

Novembro 2, 2018

OUTRO DIA

 

Nada se move

na quietude que desce.

 

As hastes

têm atitudes de pedras esculpidas.

E os ângulos

são mais breves: mais mansos

nas paredes erguidas.

 

[…]

 

Glória de Sant’Anna in Distância (p.21) 1951 Lisboa

Agosto 13, 2018

Maio 8, 2018