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GRITOACANTO

Julho 7, 2017

porque tem que ser que ninguém saiba (ou suspeite)

para que entre vós e eu não se levante

uma inútil e alheia espada

oculta em cada caule de cada flor lançada

à minha fronte

 

tem que ser navegando a longa noite

o meu rosto como proa ao mar largo

sem bússola ou sextante ou estrela polar

para que entre vós e eu não se levante

a neblina da inquietude

 

quero-vos assim e vogareis nas palavras

que hajam de ser ditas mesmo assim tão ténues

estareis parecendo

que ninguém saberá  a força com que me destruis

porque vos estou  sopeando e contendo

 

e acharão natural que sob uma ou outra flor

lançada à minha fronte

haja um vago palor de fadiga e de assombro

 

Glória de Sant’Anna in Gritoacanto 1970-1974 – Amaranto, 1988

Moçambique – Chimoio

Junho 2, 2017

 

Moçambique – Chimoio
( anos setenta )

Estamos frente a frente. Eu tenho os braços nos braços da cadeira e a mão esquerda encostada ao queixo – posição que não durará muito porque eu gosto de me exprimir também com gestos. Apesar de não ser bonito, dizem.
Ele, do outro lado da mesa, não tem mais de vinte anos. Pousou a metralhadora sobre os joelhos e espera.
É altamente politizado e transmite no aperto de mão firme a aspereza da pele marcada de matope, de poeira, de mato.
Vem ao Regional para colaborar num programa informativo.
“O que é o povo ?”
É um desafio lançado com ironia e olhos sorridentes.
“Somos todos” digo eu abrangendo os entes míseros que povoam o planeta, e fugindo à definição das constituições doutrinárias escritas ou por escrever ainda.
Ele mantém o mesmo ar respeitoso sim, mas imensamente desafiador.
“Quer dizer-me um dos seus poemas em que haja povo ?”
Pego num papel e escrevo um dos poucos meus poemas que sei de cor.

POEMA DO MAR

O pescador está morto no fundo.
E o pé, lho sustém um coral.
Desfez-se o ‘mcota e está nu
– nu e livre dentro do mar.

Por seu rosto inda intacto e quieto
roçam algas delgadas e breves
e através dos olhos abertos
há liquidas imagens verdes.

Tem os braços erguidos. E as mãos
como pálidas flores desdobradas
atravessam serenamente
o compasso da água.

Quem o busca no cimo, não sabe
quão perfeito e completo ele está
assim preso pelo último coral
à memória de tudo o que amava.

E por isso todas as palavras
e apelos e gritos e lágrimas
se dispersam na sombra do vento
e no azul secreto da água.
..
E estendo-lhe a folha A4 para ele ler.
“Este é um poema que fala de liberdade.”
“Não entendo.”
“Repare.” E faço o que não gosto de fazer – explicar o que escrevo: “ – nu e livre dentro do mar.”
“Não está o pescador livre de repressões, ainda que só por força do mar ?”
Há um largo espaço de silêncio.
Ele bate duas ou três vezes na coronha da arma e fica muito sério.
Vira a cabeça e fita um ponto distante na parede.
Quando volta a olhar para mim os olhos já não são sorridentes. Trazem a veemência de mais perguntas que não faz.


Glória de Sant’Anna in ao ritmo da memória – 2002

Abril 11, 2017

Glória de Sant’Anna por Da Costa Maya – 1981 Malmö – Suécia

Fevereiro 21, 2017

AO RITMO DA MEMÓRIA

Novembro 16, 2016

Moçambique – Cabo Delgado   ( anos sessenta )

O maior embondeiro é o da Cumilamba o bairro de caminhos de areia onde o mar se desfaz deixando búzios e restos de algas.
É enorme.
E o largo tronco desproporcionado assenta em raízes grossas que se afundam poderosamente sugando o que será depois folhagem pequena e frutos para usar no caril.
Quando se passa parece que se evola do vegetal gigante uma aura tranquila e protectora.
Como se nos visse e nos cedesse um mínimo da sua alma de tempo.
Os nativos consideram os embondeiros árvores sagradas. Acontece verem-se presos aos troncos rectângulos de pano branco e logo abaixo no chão uma tigela com oferendas – em lembrança de alguém.
Não se cortam ramos de embondeiro para a fogueira. Apenas os frutos são colhidos porque no alimento haverá comunhão com a árvore.
Contaram-me que uma vez um administrador se predispôs a alargar uma estrada.
( Seguiria ela mais ou menos o traçado da picada marcada pelo alferes Campelo que sob as ordens do comandante de Marinha Jerónimo Romero – fundador da colónia agrícola de Pemba – escolheu o lugar estratégico para a construção de um fortim hexagonal na ponta de Miranembo, um dos fechos da Baía ).
A aspiração do administrador ia colidir com a existência de um embondeiro.
E os nativos recusaram-se a cortar a árvore.
O administrador que não estava a pedir mas a ordenar, ignorou as frases de “Embondeiro castiga quem o corta”. E o embondeiro foi cortado. Só que ao cair apanhou o administrador, matando-o.
Posso considerar este facto como uma lenda. Mas esta lenda contém a forma de aviso usada por muitos nativos quando contam uma história que tem como intenção ensinar outro a não prejudicar a cadeia ecológica e a respeitar a mitologia própria da sua cultura.
Mitologia essa pela qual fui abrangida.
Ao fundo do quintal da minha casa, perto do muro, nasceu uma planta para mim completamente desconhecida. Uma arvorezinha. E só reparei nela quando ela teria mais ou menos a altura de um dos meus filhos mais pequenos.
Encostei-me ao muro a olhar. E não havia ali nada de parecenças com as outras árvores – mangueiras, papaieiras, ateiras, amoreiras… Nem com a árvore de Stº António do jardim e muito menos com as casuarinas.
Maçanica ? A bravia de frutinhos em forma de maçã e de cujas folhas os coelhos e os cabritos gostam ? – Não.
Jambaloeiro cujos frutos parecem azeitonas e deixam a língua azul ? – Não.
Uva de macaco ? Nem pensar.
Mandioca ? Também não.
Chamei o Domingos, o guarda hortelão.
“Diz-me – que planta é esta ?”
Ele olhou-me com uma sombra de sorriso e não respondeu.
“Então ? Também não sabes ?”
“Sei, sim. Esta é a planta de Embondeiro”
“Como assim ? Donde é que podia vir ter aqui um embondeiro ?”
O Domingos pacientemente fez uma sugestão: “ Quando Malia vem à tarde e traz fruto de embondeiro para juntar no caril, espalha semente por aí. Alguma foi essa.”
Malia era a mulher de Domingos e ambos viviam ali e ali acendiam a fogueira. Lugar morno e calmo para conversar antes de dormir.
Tornei a olhar para ele e para a planta.
Havia na expressão da face dele qualquer coisa que me escapava. Como se entre o seu olhar e o seu sorriso estivesse o embrião de uma conjura.
“Tens a certeza ?”
“Sim senhor.”
Surgiu-me o pensamento de certa forma idiota e ridículo: “Já terei morrido há milhares de anos quando este embondeiro for igual ao da Cumilamba. Mas antes disso vai-me deitar abaixo o muro.”
Fitei o Domingos e com uma carga de desconfiança que ele nem merecia, disse-lhe:
“Vai lá buscar a enxada.”
Percepcionei nele uma hesitação muito intensa. Mas foi e trouxe a enxada já sem a mais pequena sombra de sorriso.
Começou a cavar.
E foi um espanto para mim a fundura a que iam as raízes, a força com que se agarravam, a quase elasticidade do pequeno tronco que era empurrado e voltava ao mesmo sítio.
A verdade é que não se conseguiu tirá-lo.
“Deixa lá – disse eu. Deixa lá.”
De repente o Domingos começou-se a rir.
“Senhora viu ? Senhora viu que ele não quis saír ? Pequeno e tudo ele não quer saír deste quintal. Embondeiro é assim. Só nasce e fica onde quer. E ele quer ficar da família deste quintal.”

 

O que pode uma pessoa contrapôr a uma verdade circunscrita à enorme força anímica de um país onde um ser humano acredita que um embondeiro a escolheu ?

 

Glória de Sant’Anna in ao ritmo da memória p.p 21,22 – 2002

ANTE ( o rosto de Azur )

Julho 12, 2016

de sangue salgado se vestem

estas minhas palavras

e é sangue e sal o que escrevo

e mágoa

 

da verdadeira impossibilidade de lágrimas

 

tudo já ultrapassa

o tecido da face que vos apresento

ou não molhada

 

nem (reparem) nem um grito

seria a expressão exacta

já nem

 

porque como tudo um grito

é um facto que se estilhaça

e acaba

 

Glória de Sant’Anna in Gritoacanto, 1970 -1974 – Amaranto, 1988 p. 229

NOCTURNO

Março 21, 2016

Dentro dos finos dedos das árvores quietas

a noite dorme um longo sono transparente

 

junto das tépidas aves de olhos ausentes

da clara madrugada que ainda não surgiu.

 

O esparso e denso azul silêncio ressente-se

e simula agitar-se a uma brisa ténue que não existe.

 

(e contornaria os muros pálidos e inertes

sem tocar o secreto e desconhecido íntimo das pedras).

 

Tudo se contém no contorno fixo do seu limite.

 

Só o mar se desdobra e reflecte inquietamente

a vigília inútil e cansada das estrelas.

 

Glória de Sant’Anna in Um Denso Azul Silêncio 1965, p.65